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6 de Fevereiro, 2022

Opinião. Um triste “espetáculo” em torno de Rayan

Arab News/Reprodução

Rayan, o menino marroquino que esteve dentro de um poço durante mais de 100 horas, foi assunto das televisões nacionais e internacionais durante vários dias. O final não foi o esperado, infelizmente, e voltou a mostrar o melhor e o pior lado da humanidade e em que a televisão fez parte.

Um poço estreito de cerca de 30 metros de profundidade foi a última morada de Rayan que, depois de muitas horas de um sofrimento inimaginável, acabou por ser resgatado sem vida. Casos como este geram sempre uma onda de solidariedade, nem que seja em pensamento, a nível mundial gerando também muita curiosidade. Os meios de comunicação social têm, nestes casos, a difícil missão entre noticiar o essencial sem cair no facilitismo do aproveitamento da desgraça alheia.

Durante muitas horas, sobretudo neste sábado, os canais noticiosos portugueses escolheram centrar todas as atenções no resgate do menino marroquino. Durante a tarde falou-se sobre tudo e sobre nada. Comandantes de bombeiros, psicólogos, tradutores e afins serviram para encher os conteúdos noticiosos dos vários canais que claramente se aproveitaram do momento. Contudo, é sempre difícil de julgar porque muitos de nós tivemos a curiosidade de saber o que se passava no norte de Marrocos. Ainda assim, por exemplo, ao longo da tarde a CMTV passou em rodapé oráculos como “milagre prestes a acontecer”, algo muito dispensável, sobretudo pelo fim que o resgate acabou por ter. Aliás, graças à cobertura deste mesmo resgate, o canal do Correio da Manhã conquistou a sua maior audiência de sempre.

Mesmo assim, aquilo que os canais portugueses fizeram em nada ultrapassa o espetáculo hediondo que os canais locais prestaram. No momento em que Rayan estava prestes a sair do poço, os pais foram chamados ao local e, durante largos minutos, tiveram duas câmeras apontadas às suas caras a pouquíssimos metros. Neste momento, a televisão, a Internet ou seja lá o que for bateu no fundo, mais uma vez. Foi das imagens mais nojentas e sem classificação a que se pôde assistir nos últimos anos. Pai e mãe, num sofrimento atroz há vários dias e prestes a saber que futuro teria o seu filho, tinham dois focos de luz e duas objetivas apontadas a si. A humanidade chegou ao seu pior momento porque nada neste mundo justifica aquilo.

Infelizmente, para aqueles pais, e sobretudo para a Rayan, a multidão, as câmeras e a curiosidade, mesmo sendo terríveis, foram o menor dos seus problemas e, felizmente, em nada contribuíram para adensar o seu sofrimento.

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