Marta Massada: “Espero abrir portas a todas as mulheres que tenham um sonho”

Marta Massada estreia-se como comentadora desportiva, este domingo (18/04), um convite do canal público que inicialmente não aceitou. É a primeira vez que o programa da RTP3, ‘Trio D’Ataque’, recebe uma mulher no painel de comentadores nos seus 17 anos de história. 

Aos 42 anos, e médica de profissão, revela que o seu gosto pelo deporto e pelo FC Porto, em especial, nasceu através do seu pai, conhecido pelo seu percurso no andebol na equipa da Invicta.

Admite que o futebol continua a ser dominado por homens, embora esteja confiante com o caminho que as mulheres estão a fazer, sobretudo no combate aos estereótipos.

Apesar de alguns receios, Marta Massada não tem medo dos comentários que espera que, no final da sua intervenção, sejam positivos e abram caminho a outras mulheres.

Marta Massada
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A Caixa que já foi Mágica: Como nasceu o seu gosto pelo futebol? Cresceu consigo através do seu pai, ou foi adquirindo ao longo do tempo? 

Marta Massada: O meu gosto pelo futebol nasce de mãos dadas e a par do meu amor pelo Desporto. Naturalmente que o grande agente deste sentimento é o meu pai. 

O meu pai foi um desportista nato. Apesar de ser reconhecido pelo seu percurso no andebol, quis ser futebolista, tendo inclusive sido inscrito pelo Futebol Clube do Porto após uma captação de talentos. Curiosamente, na altura, foi a minha avó que não o deixou perseguir esse sonho, não o quis futebolista. 

A prática de atividade física foi uma constante na infância e os valores do Desporto um ensinamento basal. Ou seja, e em resposta à sua pergunta, o meu gosto pelo futebol, a minha admiração pelos valores do Desporto, o amor pela atividade física e pelo movimento Humano é quase umbilical. Veio nos genes. E, apesar de eu ser uma fiel e atenta defensora das modalidades amadoras (eu própria fui voleibolista durante 25 anos tendo representado o país quer no voleibol de pavilhão como no voleibol de praia), tenho a perfeita consciência da projeção do nosso país através do futebol. 

O futebol português é reconhecido mundialmente, muito fruto do trabalho dos grandes clubes. Tenho múltiplas estórias passadas no estrangeiro, quer em representação da Seleção Nacional, quer em alguns dos estágios que fiz no contexto da minha formação em Ortopedia, que revelam o renome de Portugal através do futebol. 

Por exemplo, numa qualificação para o Campeonato da Europa na Bielorrúsia,em 2004, estávamos numa cidade pequena, terra batida nas estradas, não havia sequer uma loja que vendesse matrioskas para recordação. Num passeio, ouço alguém gritar: “Portugalski!! Alenichev, Alenichev!”. Naturalmente corri em direção ao senhor, abracei-o e ainda nos rimos um bocado. Em Nova Iorque, os taxistas egípcios só me falavam do Manuel José. No Azerbaijão as crianças davam-nos postais com fotografias do Rui Costa ou do Figo para nós autografarmos. É inexorável o valor do Futebol. Mesmo quem não o aprecia, não o pode ignorar.

ACQJFM.: Que importância tem o FC Porto na sua vida? 

M.M.: A importância do FC Porto na minha vida começa nas memórias. E são tantas. Eu comecei a ter consciência do FC Porto na sua melhor altura, na década de 80, a chamada Década de Ouro. 

Quando o FC Porto ganhava jogos importantes, e foram muitos, nesses anos, íamos aos Aliados, de bandeira em riste e comíamos farturas. Esta época culmina da melhor maneira em 1987. O meu pai partiu um candeeiro em festejos no primeiro golo. Eu parti uma colher de pau a bater nas panelas após a vitória. Tinha 9 anos. 

São coisas pequenas, mas que ficam marcadas de forma indelével numa criança. O FC Porto foi sempre importante. À medida que fui crescendo, que fui tomando consciência da dimensão e da relevância desta estrutura desta marca para a minha cidade, para o meu país. Apercebi-me da relação quase visceral que tenho com o clube. 

Marta Massada
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ACQJFM: O futebol continua a ser um desporto maioritariamente de homens? 

M.M.: Em número absoluto, sim. Mas há cada vez mais meninas nas bancadas, na televisão, na arbitragem, no treino, na gestão, no jogo em si. O estereótipo está a mudar, e ainda bem. 

As crianças, as jovens que querem jogar à bola, que gostam de futebol, têm Alex Morgan, Marta Vieira, Lieke Martens, Megan Rapinoe como inspiração. E estas atletas são inspiração por serem magníficas, extraordinárias, excelentes jogadoras e lutadoras, não por serem mulheres. 

Mas a verdade é que a discriminação de género no mundo do desporto se mantém enraizada e isto cria imensas dificuldades a estas meninas, a estas mulheres que só querem jogar futebol/arbitar/ser dirirgentes ou treinadoras sem serem julgadas ou perderem a sua feminilidade. 

Mas também nos cabe a nós, mulheres, continuar a batalhar e mostrar as nossas paixões, a nossa capacidade de trabalho. Os estereótipos instituídos são opressores e injustos, mas há que continuar a combatê-los com disciplina e com sacrifício. As coisas estão a mudar.

ACQJFM.: Como surgiu e porque aceitou este convite da RTP? 

Este convite surge da RTP, face à saída de António Oliveira. Confesso que não o aceitei, nas primeiras conversas. Fiquei incrédula, ri-me, achei descabido e que não fazia sentido. Conforme o próprio António Oliveira disse: “qualquer um pode ser doutor”. 

Fazer o que ele fazia, o que ele fez, isso sim, é complicado! No entanto, fui-me convencendo que talvez fosse interessante ter uma voz diferente. 

Eu vivo no desporto. Vivi-o décadas como atleta de alto rendimento, continuo como especialista em Ortopedia e em Medicina Desportiva. Leciono na Faculdade de Desporto da UP. A minha arte é a lesão desportiva, o seu tratamento, a prevenção, a mecânica do gesto desportivo. 

A minha luta é por um país menos sedentário, pela promoção da Saúde através do Desporto. Defendo os valores do Olimpismo como sagrados. O Desporto une. O desporto tem o poder de superar velhas divisões e criar o laço de aspirações comuns, disse Mandela. Foi assente nestes pressupostos, os meus, que aceitei.

Marta Massada
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ACQJFM.: A Marta é a primeira mulher a fazer comentário desportivo num dos programas do género com maior longevidade da televisão. Sente o peso da responsabilidade acrescido? 

Marta Massada: Claro! Mas por isso mesmo é que o desafio é maior, mais atrativo. Disse-o antes e repito: há que combater os estereótipos com disciplina, com mérito. 

ACQJFM.: Porque é que ainda é novidade haver uma mulher como comentadora de futebol na televisão? 

M.M.: Pelo mesmo motivo que não há mulheres no dirigismo. Pelo mesmo motivo que só há uma Becky Hammon (treinadora adjunta dos Santo Antonio Spur que já atuou como treinadora principal, a primeira na história da NBA). Só há uma Kathleen Krüger (team manager do Bayern Munique) e só há uma Maria João Figueiredo (presidente do Futebol Clube Barreirense). São os pequenos passos que temos de percorrer. Esta minha tarefa é insignificante em comparação com estas grandes mulheres.

ACQJFM.: Tem mais receio das críticas sobre o conteúdo das suas opiniões ou de comentários machistas que possam surgir? 

Marta Massada: Não tenho grandes receios. Naturalmente que me preocupa muito mais que o conteúdo não seja entendido do que os possíveis comentários machistas. A crítica faz parte da vida, é expectável que exista e isso pode não ser, necessariamente, negativo.

ACQJFM.: Teme que os seus colegas sejam mais contidos nos comentários por existir em estúdio uma presença feminina? 

M.M.: Talvez no início se sintam inibidos, sim. Mas julgo que à medida que as coisas forem evoluindo isso se diluirá. 

ACQJFM.: Espera abrir o caminho para outras mulheres fazerem comentário desportivo em televisão ou isso não é algo que está na sua mente? 

M.M.: Espero sim. Espero abrir portas para todas as meninas, todas as mulheres que tenham um sonho. Que não se abriguem no facto de serem Mulheres, mas no facto de serem competentes. 

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ACQJFM.: Como é que se vai preparar para o programa? 

M.M.: Como me preparo para todos os desafios da minha vida: com estudo e um sorriso. Eu sou uma adepta de futebol, Uma apaixonada pelo Desporto onde vivi e vivo quase desde que tenho consciência de mim. Pedem-me para opinar sobre aquilo que mais adoro, acho que não podia ter escolhido melhor tarefa.

ACQJFM.: Quando terminar o seu primeiro direto, o que gostava de ler ou que lhe dissessem sobre a sua prestação? 

Marta Massada: Gostava de ler que consegui um passinho mais em direção àquilo que é o que defendo: os valores do Olimpismo, um Desporto mais inclusivo, a promoção do Desporto num país que tanto vive dele. 

Que defendi as minhas gentes e que não ofendi o adversário. Afinal, e pego nas palavras do meu amigo e tão saudoso Alfredo Quintana, o adversário quer exatamente o mesmo que eu: vencer.

ACQJFM.: A televisão ainda é a “caixa mágica”?

M.M.: A televisão será sempre a “caixa mágica”. Foi a nossa primeira janela para o mundo e está a reinventar-se, como assim o exige a atualidade. Talvez no futuro comece a promover experiências diferentes, semelhantes às dos dispositivos móveis, as novas “caixinhas” mágicas, mas não acredito nem que a janela se feche nem que a magia se vá.

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