Menu

4 de Março, 2019

Efeito Conan

Fotografia.: Imagem RTP

Fotografia.: Imagem RTP

Sempre que os seres humanos enfrentam situações novas, surgem duas opções, independentemente da problemática, resumidas entre o “sim” e o “não”. É assim que nos dividimos e nos vamos posicionando, umas vezes ao lado de uns, outras ao lado de outros, outras mais solitários, outras mais acompanhados.

Conan fragmentou-nos, como nos fragmenta um tema referendável como o aborto, o casamento homossexual, a adoção por casais do mesmo sexo ou a eutanásia. Sabemos que não é consensual, como poucas coisas o são, mas ser questionável e passível de debate é outra coisa e foi isso que o foi alimentando no Festival da Canção deste ano. Não que ele precisasse, mas a sociedade gosta de se comportar dessa forma. Na verdade, Portugal adormece várias vezes como Nação, na escolha de pessoas para se fazer representar na Europa e no Mundo, como é o caso das eleições europeias, onde a abstenção reina por natureza.

A verdade é esta, é que os políticos do futuro terão de ser Conans, terão de fragmentar, terão de ter uma imagem forte, terão de ser seguros de si próprios e fiéis a si mesmos, terão de contar uma história…uma história verdadeira.

Conan é daqueles exemplos que devem ser seguidos e até estudados. São fenómenos de popularidade, que surgem inesperadamente, e que devíamos tentar entender o porquê de reunirem à sua volta tanta discussão e ao mesmo tempo tanta aceitação.

Ouvi-o pela primeira vez em junho ou julho do ano passado, quando me enviaram a canção “Adoro Bolos”, e lembro-me de quando cliquei no “play” ter ridicularizado a letra e até a melodia. Mas insisti e ouvi outra vez e outra vez e quando dei por mim tinha passado um dia inteiro a ouvir o álbum em “loop”. Uma semana depois sabia todas as letras e dançava entre sons tribais, misturados com fado e a tradicional batida forte da música africana. Se tivesse de criar uma identidade para as músicas do Conan, talvez tivesse de dizer que era uma música do Mundo, com um pouco de tudo, e que alguns entendem, como um pouco de nada.
É difícil. Não esperava que ganhasse precisamente por ser difícil. Mas as minorias mexem-se, as redes sociais hiperbolizam e o Mundo adorou.

Os comentários dos seguidores estrangeiros da Eurovisão ajudaram a formar um público português, que rapidamente percebeu que a música ia ser aceite na competição em apoteose.
Esse público formou-se e movimentou-se em comentários nos vídeos partilhados no Youtube. Conan, percebeu o que estava a acontecer, e numa questão de horas após a primeira semifinal tinha alcançado toda a imprensa portuguesa e era convidado para o programa da apresentadora mais mediática da televisão. Mostrou-se, sempre, humilde e genuíno. Contou, uma e outra vez, a sua história. E lá está ele, daqui a dois meses, a subir ao palco em Israel.

O caminho de Conan, à partida, não era este. Mas ele foi nadando bem nas ondas de indignação e, de forma carismática, sobrepôs-se aos comentários negativos. Mas Conan não é indiscutível, bem pelo contrário. Quem acredita que esta vitória mostra que os portugueses têm uma mente aberta a novas experiências, engana-se e bem. Os comentários a Surma mostram precisamente isso. Conan foi só o mais acarinhado pela tal minoria. E as minorias têm uma força monstruosa quando se unem. Surma era a segunda mais acarinhada neste grupo, mas os esforços no televoto foram encaminhados na totalidade para Conan e Surma nem em segundo aparece. Só por aí se vê que são uma minoria, que só consegue mostrar força num dos seus representantes.
A alguns Conan “entrou” porque ouviram outros dizerem que era cool. Para a maioria, Conan continua só a ser motivo de gozo. Ele é um génio e, como todos os génios, talvez só depois de morto consigam dar-lhe o devido valor.

Os génios não surgem por acaso, surgem para agitar, para fazer pensar, para colocar a sociedade em posições desconfortáveis, para suscitar a discussão em torno de temas sensíveis e para chocar com a imagem, com a escrita, com o que fazem. Conan, no mínimo, pôs os portugueses a ler e a tentar interpretar a sua letra. Poucos conseguem e continuam a rir-se, mas pelo menos tentaram, entre mais um scroll inútil nas redes sociais e uma risada do típico humor português mastigado pelas plataformas digitais até ao limite.

Vai Conan! O Mundo não é teu, mas tenho quase a certeza que ganhas a Eurovisão, e abres mais umas mentes por essa Europa fora. A tua missão é roubar este espetáculo de Israel e fazê-lo voltar a um país pacifista e que, por enquanto, ainda vive em democracia e suposta liberdade.

Autoria.: Inês Mota Antunes

Categorias: Tags: